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PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE DISTÚRBIOS MECÂNICOS MUSCULOESQUELÉTICOS PARA CAVALEIROS E AMAZONAS

PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE DISTÚRBIOS MECÂNICOS MUSCULOESQUELÉTICOS PARA CAVALEIROS E AMAZONAS (PPDM)

Dr. Álvaro Luiz Perseke Wolff / Dra. Lígia Inez Silva

A Importância do Preparo físico
A prática das atividades equestres requer uma adequada preparação física, que é constituída por vários elementos como a flexibilidade, força, tônus muscular, equilíbrio, percepção corporal, resistência entre outros. O hipismo é uma modalidade de atividade física que demanda inúmeros movimentos corporais, sendo que, os mesmos precisam ser realizados de forma precisa e dinâmica afim de que, o cavalo execute sua performance de maneira harmoniosa.  O cavaleiro comanda seu animal utilizando de forma global o seu corpo, sendo que os seguimentos mais atuantes durante a equitação são cabeça, ombros, mãos, coluna, abdômen, quadril, membros inferiores (joelhos e calcanhares) e que possuem a função de manter a postura do cavaleiro sobre o animal. Essas estruturas atuam de forma independente e em sinergia ao passo que, o cavaleiro realiza os movimentos do seu corpo. Durante as práticas equestres, há constantes variações de direção, movimento e velocidade sendo necessário que, o cavaleiro tenha um bom equilíbrio, ajustando seu centro de gravidade com o do animal e em conjunto com o movimento, adaptando-se as demandas e ajustes ao longo da atividade.  Além disso, outro item importante é a consciência corporal, ou seja, o conhecimento da forma que seus músculos contraem e relaxam voluntariamente, posição exata dos seguimentos articulares e a capacidade de utilizar seu corpo da maneira mais correta possível.
Quanto à musculatura envolvida nas atividades equestres, todos os músculos do cavaleiro interagem com o animal em um trabalho dinâmico, rítmico e por longo tempo, sendo evidenciado um processo cíclico, constante e intenso da musculatura solicitada.   Portanto, é necessário que o cavaleiro tenha um eficiente preparo físico fora da postura sobre o cavalo, capaz de suportar as demandas corporais, garantir um rendimento satisfatório e prevenir futuros agravos à sua saúde física como: lesões musculares e ligamentares, algias osteomioarticulares, desarranjos posturais, entre outras.
Além disso, ao realizar atividades equestres os sistemas respiratório e cardiovascular do cavaleiro estão em constante solicitação, pois aumenta a necessidade de oxigênio nos músculos ativos e há a utilização de uma quantidade significativa de nutrientes. Sendo assim, essas atividades exigem aptidão e preparo cardiorrespiratório eficiente, para suportar as demandas aeróbias da atividade física. Tais aspectos influenciarão diretamente na condição física/funcional e no desempenho do cavaleiro.

EXIGÊNCIAS POSTURAIS E MUSCULARES
Em atividades como a equitação, há exigências específicas tanto das posturas adotadas pelo cavaleiro, quanto da musculatura recrutada para se manter sobre o animal. Sendo assim, cada gesto demanda movimentos próprios e solicita ativação de cadeias musculares responsáveis pelos mesmos.
Quando o cavaleiro se encontra sobre o cavalo é necessário que adote uma postura ereta, alinhada e estável da coluna vertebral com o intuito de possibilitar os trabalhos musculares dos membros superiores e inferiores. Nesse gesto, a musculatura da coxa (músculo quadríceps, adutores, abdutores e bíceps femoral) realizam simultaneamente o trabalho de contração e relaxamento. Já a musculatura dos membros superiores é solicitada para suportar o peso e propiciar os movimentos sobre o cavalo.
Um importante complexo muscular a ser evidenciado no cavaleiro praticante de equitação é denominado de “Músculos do CORE”, que são grupamentos musculares localizados adjacentes à coluna vertebral, tronco e pelve que agem de forma simultânea e equilibrada com o intuito de estabilizar a coluna vertebral proporcionando movimentos consideravelmente mais precisos do esqueleto apendicular (braços e pernas). Os principais músculos envolvidos nesse complexo são:
- Reto abdominal, oblíquos interno e externo, transverso do abdominal, eretores da espinha, multídidos, ileopsoas, reto femoral, pectíneo, sartório, glúteos (máximo, médio e mínimo), piriforme, quadrado lombar (Figura 01)

Esses músculos são responsáveis pelo centro de gravidade do corpo, alinhamento da coluna lombar e sobretudo, manutenção do equilíbrio e sustentação postural durante a atividade física. Se um dos grupos musculares que compõem o CORE não estiver tonificado, ou seja, “fraco”, haverá um quadro de desequilíbrio tanto muscular quanto estrutural, acarretando prejuízos para a condição física e desempenho. Sendo assim, é necessário que o cavaleiro tenha todos os grupos musculares salientados atuando de forma harmoniosa.
A proposta desse material é expor a importância de um trabalho de prevenção de distúrbios mecânicos e musculoesqueléticos para o cavaleiro e salientar a possibilidade de execução desse programa de exercícios preventivos em qualquer ambiente. Sendo assim, apresentamos a seguir as categorias que englobam uma adequada condição física e exemplos de exercícios que podem ser realizados para PREVENÇÃO de agravos à saúde musculoesquelética do cavaleiro.
Objetivos
Os principais objetivos da realização do PPDM, tanto para amadores quanto cavaleiros profissionais são:
• Prevenir lesões musculares e articulares
• Fortalecimento muscular
• Flexibilidade muscular
• Resistência muscular
• Promover estabilidade muscular (músculos do CORE)
• Melhorar a coordenação motora e equilíbrio postural
• Melhorar a postura e consciência corporal

FLEXIBILIDADE
O termo flexibilidade pode ser definido como a máxima variação da amplitude de movimento (ADM) de uma ou várias articulações, sendo também definida como a relação entre a alteração do comprimento e da tensão do músculo quando este é alongado. Os exercícios de alongamento possuem diversos benefícios, um dos mais importantes é aumentar a ADM, atuando diretamente na melhora da flexibilidade e provocam maior movimentação articular pelo aumento do comprimento muscular.
Para os praticantes de atividades equestres, os alongamentos proporcionam maior condição física para suportar os treinos, previnem a ocorrência de lesões, retardam a fadiga muscular, atuam na diminuição da rigidez músculo-tendínea do grupo muscular trabalhado, diminuem o estresse sobre a musculatura recrutada durante as posturas sobre o cavalo e como efeito crônico há aumento da performance.
Duração e Frequência
Segundo a American College of Sports Medicine (ACSM), a recomendação quanto aos exercícios de alongamento são específicas para a população adulta e idosa, sendo recomendada uma quantidade semanal para ganhos de flexibilidade e rendimento físico.
   
FORÇA E POTÊNCIA
A força muscular pode ser definida como a quantidade máxima de força que um músculo ou grupamento muscular pode gerar em um padrão específico de movimento realizado em uma velocidade pré-estabelecida. A força muscular é considerada um componente fundamental da aptidão física voltada para a melhora e manutenção da qualidade de vida, fazendo parte de uma ampla gama de programas de prevenção de lesões musculares e articulares e de trabalhos de condicionamento físico com vistas à saúde.
Existem várias formas de se estabelecer um trabalho de força muscular. Podendo ser isométrico, concêntrico e excêntrico. Os exercícios isométricos são realizados sem movimento articular, ou seja, há apenas geração de força, mas o músculo se mantém estático, são utilizados para prevenção de atrofia muscular. Nos exercícios concêntricos, o músculo se encurta e observa-se o movimento articular à medida que a tensão aumenta. Já os exercícios excêntricos ocorrem quando as fibras musculares trabalham de maneira controlada afim de, DESACELERAR os movimentos, assim o músculo se alonga a medida que a tensão aumenta. Ressalta-se que os programas de exercícios com pesos devem ser progressivos para produzirem um aumento substancial e contínuo da força e massa muscular.

Duração e Frequência
Geralmente a prescrição de exercícios de força é feita a partir de testes de uma repetição máxima (1RM), que é a maior carga que o indivíduo pode mover em uma única repetição. Os testes de 1RM, além de proporcionarem a determinação da força absoluta do indivíduo, permitem que as cargas de treinamento sejam prescritas relativamente, ou seja, em percentuais selecionados de 1RM. Segundo a American College of Sports Medicine (ACSM), a recomendação quanto aos exercícios de força para adultos jovens saudáveis é específica com bases na repetição máxima realizada pelo indivíduo. As prescrições semanais variam de acordo com o objetivo, seja ele força ou hipertrofia.

Estabilização – EXERCÍCIOS DO CORE
A palavra core vem do inglês que significa centro, núcleo. A estabilidade é definida como a habilidade para deslocar e manter a integridade da estrutura. Para nos familiarizarmos com o conceito de estabilização central é necessário conhecer a “zona neutra”, que é o local de pequena amplitude de deslocamento próximo à posição neutra da articulação, em que estruturas osteoligamentares oferecem resistência mínima. Sendo assim, a estabilização central tem como objetivo proporcionar ao indivíduo força, potência, controle neuromuscular eficiente e de forma antecipatória nos músculos da zona neutra. É o local em que se situa o centro de gravidade, e têm início todos os movimentos corporais, permitindo aceleração, desaceleração, e estabilização dinâmica durante movimentos funcionais. Os músculos que fazem parte do CORE, ou seja do sistema estabilizador central são ativados 30 a 50 ms antes do início do movimento e essa ativação ocorre independentemente da vontade do indivíduo.
O programa de estabilização central é indicado para preparação de cavaleiros nas atividades que acarretam o desequilíbrio biomecânico da coluna lombar como é o caso das atividades equestres que exigem resistência e ao mesmo tempo movimentos amplos do tronco. Esse treinamento objetiva isolar os músculos apropriados, depois trabalhar a capacidade de manter a contração e de contrair automaticamente com outros músculos para apoiar e proteger a coluna. Os exercícios de estabilização central têm por objetivos melhorar o controle postural dinâmico, garantir controle muscular apropriado do complexo lombopélvico, promover estabilidade proximal para movimentos eficientes das extremidades.  A progressão desses exercícios deve ser do simples para o complexo, do lento para o rápido, do estável para o instável, de pouca força para muita força, do geral para o específico, da execução correta para o aumento da intensidade.

ASPECTOS IMPORTANTES
Qualquer programa de prevenção de lesões musculoesqueléticas precisa ser feito e estruturado por um profissional habilitado que conheça as demandas do cliente bem como, da atividade que o mesmo realizará.
Quanto às práticas equestres, sabemos que existe uma grande variedade de modalidades à escolha do cavaleiro e o volume de treinos semanais é bastante oscilante para cada tipo de atividade. Dentro desse contexto, é extremamente relevante levar em consideração a individualidade de cada sujeito e quais os aspectos físicos de ordem preventiva precisam ser explorados com relação à sua atividade e sua condição funcional. Isso quer dizer: CADA MODALIDADE E CADA CAVALEIRO REQUER UM PROGRAMA ESPECÍFICO E INDIVIDUALIZADO, COM A ESPECIFICIDADE NECESSÁRIA PARA CADA UM. Com base nessa afirmação, se torna inviável e prejudicial a prescrição de exercícios de forma generalista, sem considerar aspectos relevantes de cada sujeito.
Um PPDM individualizado, para cavaleiros e amazonas é constituído por uma ANAMNESE, ou seja, uma avaliação da capacidade física e funcional,  conhecimento do histórico de lesões musculoesqueléticas bem como, das habilidades motoras e demandas esportivas do indivíduo, após essa etapa o profissional realizará a ESTRURUTAÇÃO DO PPDM, que constará dos exercícios a serem executados, prescrição da quantidade de repetições, duração de cada exercício e volume de execução semanal, por fim se realizará um PLANO DE PERIODICIDADE de avaliação funcional  para progressão  e ajustes do PPDM proposto.

Dr. Álvaro Luiz Perseke Wolff
Fisioterapeuta - CREFITO 7030F                                                                                       Mestre em Ciências do aparelho locomotor pela Escola Paulista de Medicina. Certificado por The McKenzie Institute. Coordenador da Área de Fisioterapia na Comissão de Residência Multiprofissional do Hospital de Clínicas da UFPR.  Consultoria em Fisioterapia Musculoesquelética - e- mail: alvarowolff@gmail.com

Dra. Lígia Inez Silva
Fisioterapeuta – CREFITO 194381F
Graduada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar pelo Hospital de Clínicas da UFPR  (HC/UFPR)
Pós Graduanda na Escuela de Osteopatia de Madrid – EOM
e-mail: ligiainezsilva@hotmail.com

Contato: (41) 3322-6200
Rua: Emiliano Perneta 860 sala 1006- 10º andar

REFERÊNCIAS
Magnusson SP, Aagaard P, Nielson JJ. Med Sci Sports Exerc. 2000;32(6):1160-4.
Knight, C.A. et al. Phys Ther, 81(6): 1206-1214, 2001
Fleck SJ, Kraemer WJ. Fundamentos do treinamento de força muscular. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
Hunter GR, Mccarthy JP, Bamman MM. Effects of resistance training on older adults. Sports Med. 2004;34:329-48.
Kalapotharakos VI, Michalopoulou M, Godolias G, Tokmakidis SP, Malliou PV, Gourgoulis V. The effects of high- and moderate-resistance training on muscle function in the elderly. J Aging Phys Act. 2004;11:131-43.
Hagerman FC, Walsh SJ, Staron RS, Hikida RS, Gilders RM, Murray TF, et al. Effects of high-intensity resistance training on untrained older men I, strength, cardiovascular, and metabolic responses. J Gerontol Biol Sci. 2000;55A:B336-46.