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Racismo, tradicão, funcão

Volta e meia me fazem a famosa pergunta: “qual a sua raça favorita de cavalos”? Ou ainda, quando vem de pessoas iniciantes neste universo: “qual a melhor raça de cavalo”? Em geral minha resposta é mais ou menos “na verdade, acho que o racismo está meio ultrapassado...”
Na minha opinião, o foco para se escolher um cavalo, seja para ter ou para criar novos potros, deve estar em função, na modalidade ou no trabalho que se quer fazer com um cavalo. E a partir disto, nortear criação, treinamento, manejo, em torno deste objetivo. Aí sim, existe um tipo racial mais adequado a cada propósito. O problema passar a ser apenas o excesso de dogmatismo, em geral relacionado à ilusão do “puro isso” ou “puro aquilo”.
Claro que a funcionalidade também tem relação com a habilidade humana. Ou seja, aprender a montar e a lidar com cavalos é preciso. A genética é apenas um dos elementos do quadrado onde está inserido “o bom cavalo” – os outros são manejo (incluindo cuidados veterinários), nutrição, treinamento.  Muitas vezes a confusão da percepção entre os diversos componentes é meio grande.
Por exemplo, tenho um conhecido que tem cavalos de passeio, e volta e meia me procura para comentar como fica irritado com o nível fraco que vê de equitação nas cavalgadas de que participa. Ele me escreve: "quero fazer um projeto para melhorar a equitação, e um dia fazer esporte". Ficamos trocando ideias algum tempo, aí ele desaparece de novo por alguns meses ou anos. Talvez falte para ele a coragem de assumir o interesse pelo esporte, pela equitação mais técnica, assumir este interesse logo de uma vez e viver de acordo – mudando de turma se for o caso -  ao invés de querer “mudar os outros” – pessoas que querem apenas  passear a cavalo, e têm todo o direito de fazê-lo.
Em outros cenários, o problema é o excesso de apego à tradição, na linha do velho bordão “meu pai fazia assim, meu avô já era assim, desde os tempos do meu bisavô...”. Curiosamente, nunca ouvi ninguém dizer : “na minha família só gostamos de dentista que arranca dente no boticão e sem anestesia, porque no tempo do meu bisavô já era feito assim. Há coisas boas tanto na tradição quanto na modernidade; sabedoria reside em saber equilibrar tudo que a vida no aqui e agora tem a nos oferecer.
Consideremos o exemplo do Holsteiner, originário da Alemanha, uma das seleções de cavalos que lidera as estatísticas internacionais de salto. Até o fim da segunda grande guerra, era um tipo de cavalo de tração e  montaria médio-pesado, criado para fins militares, desde formar os batalhões de cavalaria até o transporte de canhões e do  material de campanha em geral. Com o fim da cavalaria militar, a criação se modernizou em poucas décadas, mantendo as bases genéticas porém mudando a seleção para um tipo atlético, longilíneo e de temperamento mais sensível, através da introdução de animais sela francês, puro-sangue inglês e anglo-árabe. Se tivesse persistido o apego a uma tradição ultrapassada, a raça Holsteiner poderia ter sido extinta.
A funcionalidade de cavalos sempre existe, e é o que justifica a própria existência dos cavalos domésticos. E se forma segue função, a aparência e o temperamento dos cavalos dependem de sua utilização principal. Claro que esta utilização muda – imagine se alguém quisesse, no século XXI, vender um cavalo com o argumento de que “há 300 anos, o melhor cavalo para puxar canhões”???
Outro amigo ainda, adepto de uma raça, estes dias me declarou com muito orgulho: “tenho a cabeça bem aberta, desde criança sempre conversei com o pessoal das outras raças”. Comecei a rir sozinha, e quando ele não entendeu muito, perguntei a ele: - Que opinião você teria de uma pessoa que lhe dissesse, com muito orgulho, coisas do tipo "sempre conversei muito com pessoas negras, apesar de ser branco"? Nem todo mundo se dá conta de que a própria seleção racial já é um tipo de racismo. Será que não seria mais funcional, e menos anacrônico, pensar em “funções em comum” ao invés de “raças distintas”? Até que ponto a insistência em “raça pura” é um atavismo ultrapassado oriundo de nossa pré-história, do tipo “meu clã é mais forte do que o seu clã”?
Os critérios objetivos de valor, e aí voltamos à funcionalidade, podem ser um bom parâmetro para balizar os rumos de uma criação. Voltemos a usar o exemplo dos cavalos europeus de salto. Quando uma criação regional perde terreno, a questão que se impõe é "Nosso cavalo tá saltando mal, está perdendo clientes, o que podemos fazer? Que sangue está na moda?" Só que esta “moda” não é subjetiva, determinada por política ou por preferências pessoais, e sim pelo mercado. O que está na moda é o que salta mais, de maneira 100% objetiva. Assim, se um cavalo de outra região de criação se mostra interessante para determinado grupo de criadores, ele é aprovado na outra raça, e seus filhos passam a ser da mesma – sem práticas ocultas nem nada.
A tradição de um povo ou de uma raça são as suas raízes. Mas isto não é justificativa para se enterrar a cabeça no chão. Nossos olhos e nossa mente servem para enxergar longe e sonhar com o futuro. E o nosso corpo – no caso, os cavalos que temos e selecionamos no aqui e agora é que nos mantém vivos, atuantes e evoluindo.

Claudia Leschonski - na Revista Horse's Life