Machu Picchu foi escolhida pela Unesco Santuário Histórico Patrimônio da Humanidade. A cidade peruana, construída a quase três mil metros de altitude, faz parte da complexa civilização Inca, um império nas Américas tão antigo quanto os reinados da Europa. Para o povo Inca, nas montanhas da Cordilheira dos Andes está a origem de tudo. Por milhares de anos, desenvolveram uma sociedade de cultura e técnicas de construção avançadas. Eles fizeram surgir nas alturas uma civilização sem igual em outra parte do mundo.
Para chegar até a cidade perdida dos Incas, a jornada nas trilhas tem caminhada e muita cavalgada. O destino é Machu Picchu, mas, entre montanhas e gelo, são muitas as aventuras pelo caminho da nossa equipe. Guiados por xamãs - descendentes dos Incas, os repórteres do Terra da Gente participam de rituais sagrados. Um desses rituais é mascar folha de coca, uma forma de amenizar a baixa quantidade de oxigênio. O desafio da cavalgada dos nossos repórteres é chegar ao topo da montanha sagrada, a uma altitude de 4.500 metros. Uma aventura que termina num grande lago glacial. No meio do caminho, a rota Inca surpreende os aventureiros com a Floresta Amazônica peruana. As flores e as aves dão mais vida às trilhas de Machu Picchu. A peregrinação à velha montanha está perto do fim. O que não termina para os nossos aventureiros são as novas descobertas nas trilhas do império Inca. O povo das cordilheiras andinas tinha conhecimento de astronomia e dominava técnicas de construção e agricultura. As últimas escavações indicam que ainda existem muitos segredos sob as ruínas da cidade sagrada.
Em Machu Picchu, se abre um espetáculo da história da humanidade: a vista privilegiada permite observar as características das ruínas. A construção tem o formato de um condor, ave símbolo de força e liberdade para os moradores dos Andes. É separada em dois grandes setores: o agrícola, onde estão os degraus de experiências e plantio; e a cidade em si, com casas e templos para adoração dos deuses. A construção segue o padrão visto em outras ruínas do Vale Sagrado. Pedras de granito branco pesando toneladas formam estruturas com acabamento e encaixes tão perfeitos que intrigam até mesmo os engenheiros modernos. A geologia é composta por rochas de 250 milhões de anos. A cidade foi construída a partir da base do rio para cima, técnica contra as erosões. E a obra do império Inca não para de surpreender. Um novo caminho foi desvendado em julho deste ano (2009), na montanha atrás das ruínas. Quem conta e mostra esta aventura são os repórteres Helen Sacconi (texto) e Antonio Luiz (imagens).
Primeiras impressões
Umbigo do mundo. Assim é chamada a capital do povo inca, no Peru. É uma das cidades mais antigas do continente. Há indícios de sua existência 5 mil anos antes de Cristo. Estamos em Cuzco. A cidade de 450 mil habitantes é uma das mais altas do mundo. Está a 3.500 metros de altitude e é o ponto de partida da nossa aventura. Nosso objetivo é chegar a uma das maravilhas do mundo: o santuário histórico de Machu Picchu.
Quase todos que visitam a cidade inca mais famosa, passam antes, por aqui. Em língua indígena, além de umbigo, Cuzco quer dizer centro. No entanto, no mapa, o município está localizado ao sudeste do Peru. Por terra, até Machu Picchu são 110 km de distância. E dezenas de caminhos incas ligam as duas cidades. Nas ruas, muitos contrastes.
Trânsito intenso e hotéis de luxo convivem com casas de barro e milenares construções de pedra, herança dos povos que viveram aqui. No centro, a influência espanhola é vista na Praça das Armas, onde estão os principais poderes, como a igreja e os prédios administrativos. O predomínio da arquitetura do povo inca, porém, é marcante. Dentro de um monastério estão as ruínas do Templo de Adoração ao Sol.
Os cômodos foram construídos em pedras, sem qualquer tipo de acabamento. Em cada sala havia a prática de rituais de adoração ao sol, ao vento, às montanhas. O curioso é que todos os cômodos são ligados por janelas simétricas. A arquitetura marcada pelas construções em rochas se repete por diversos sítios arqueológicos da região.
A fortaleza e o Vale Sagrado
Nos arredores da capital inca, uma muralha para proteger o império de ataques demonstra a habilidade dos homens que viveram há milhares de anos neste local. É a fortaleza Saqsaywaman, que significa falcão. Alguns especialistas a consideram mais importante até do que Machu Picchu.
A obra levou 77 anos para ficar pronta e resistiu a tremores e vendavais até a invasão espanhola no Peru em meados de 1500. Hoje, o que se vê são apenas 20% do conjunto arqueológico. O suficiente para atrair milhares de turistas todos os anos. Seguindo caminho ao sul, em direção a Machu Picchu, entramos na área conhecida como Vale Sagrado. O nome não é consequência do acaso.
Cercado de montanhas, o vale abriga uma das terras mais férteis do país. Há milhares de anos, os moradores utilizam o solo para agricultura e uma das provas se mantém preservada no lugar, chamado Olantaytambo.
Com ruas estreitas e um povo simples, Olantaytambo é considerada a cidade inca viva mais antiga do mundo. Aqui está o parque arqueológico que ganhou o mesmo nome. Um laboratório agronômico construído nas montanhas.
Os degraus eram usados para fazer experiências com milho e batatas. Os incas descobriram que cada patamar tem uma temperatura diferente e desenvolveram culturas ao longo de toda montanha. Até hoje, a agricultura continua o principal fator econômico dos moradores.
Ao redor das experiências, as construções em rocha seguem o padrão das outras ruínas incas e chamam a atenção pela forma como estão dispostas. Não há qualquer tipo de massa entre os blocos e os encaixes são perfeitos. A forma como as pedras foram levadas continua um mistério.
Observando o povo peruano
Mistérios do passado e modo de vida ainda intrigante nos dias de hoje. Basta observar as mulheres peruanas, que sobrevivem na altitude castigante dos Andes. Filhos amarrados ao corpo, elas descobriram nos costumes e tradições como sustentar a família. O canto em língua indígena chama a atenção dos visitantes.
O traje típico é a ferramenta para o ganha-pão. Em várias cidades próximas a Ollantaytambo, onde existem outras ruínas com patamares de plantio e silos usados para armazenar cereais, encontramos as mulheres com seus filhos à espera de moedas.
No espaço para contemplar a natureza, lá estão também as barraquinhas de artesanato. Roupas e brinquedos confeccionados com lã de carneiros complementam a renda das famílias. Em vilarejos, que cruzamos rumo a Machu Picchu, outros velhos costumes andinos continuam.
No mercado municipal, onde centenas de variedades de batatas colorem as bancadas, o café da manhã não passa despercebido. Às 8 horas, crianças, adultos, idosos se deliciam com um prato no mínimo curioso. É o caldo de cordeiro, feito com a cabeça do animal. Não arriscamos experimentar, mas quem toma garante que é bom.
Enfrentamos a altitude em direção às montanhas. Conforme subimos, as regiões povoadas ficam para trás. O último vilarejo é Mollepata. Ao passar pela cidadezinha, nossa viagem ganha um tom de aventura.
Preparação para a cavalgada
A partir de agora vamos a cavalo. A preparação merece atenção. Capricho com os animais e todo cuidado para manter a segurança dos aventureiros. O ar rarefeito por causa da altitude dificulta a respiração.
Conhecemos uma turista alemã que escolheu conhecer o país a cavalo porque considera o caminho mais confortável. Mais a frente, sentindo a altitude, o administrador de empresas da Capital de São Paulo resolveu fazer uma surpresa em família, trazendo o filho para a aventura. Essas e outras pessoas nos acompanharam na longa trilha em busca de Machu Picchu.
A vegetação rasteira com solo rochoso é o cenário mais comum do ecossistema de altitude predominante nesta região dos Andes. As cidades ficaram para trás. A companhia dos cavalos é uma aliada na adaptação do organismo ao clima seco e com pouco oxigênio. Estamos a mais de 3 mil metros acima do nível do mar. Além de ajudar o corpo, os animais promovem uma perspectiva diferente para observação das paisagens.
Cercada por montanhas, a trilha rumo a Machu Picchu é herança dos Incas. Os caminhos usados hoje pelos turistas já eram utilizados há centenas de anos como ligação entre os vilarejos do Vale Sagrado.
Com tantas belezas, quase não percebemos o tempo passar e a parada para o almoço é uma oportunidade para aprender mais sobre os costumes andinos.
Confraternização ao pé da montanha
Luiza Valente nos mostra como mascar uma folha de coca. “Em primeiro lugar, convidaremos as montanhas e vamos compartilhar a folha de coca confraternizando como irmãos", diz a camponesa seguindo com o ritual. Em quéchua, língua indígena, Luiza fala o nome de cada uma das montanhas dos Andes peruanos e sopra as folhas numa reverência. Separando-as de três em três, adiciona uma pedra acinzentada e me oferece para mascarmos juntas. Todo o grupo é chamado para compartilhar o momento. A presença do guia facilita a compreensão: “Esta pedra adicionada às folhas chama-se lifta”, diz Guido.
A lifta é preparada com a cinza de algumas plantas como quinua e areta. A função é potencializar o efeito da coca. Com ela, a folha produz um líquido que adormece as gengivas. Guido diz ainda que não é preciso mascar as folhas, mas explica que os camponeses o fazem por costume. "Os homens não param de mascar até que terminem o trabalho do campo. É um potente estimulante e tira a fome. Quando terminam o serviço, eles deixam esta bola de coca mascada num lugar como agradecimento aos benefícios e fazem uma oferenda pela ajuda que tiveram no trabalho", explica.
Para completar, Guido garante que a folha de coca sara também outros males, dizendo que a coca é como um remédio para tudo. Especialmente para o estômago. Os camponeses geralmente convivem com muita sujeira e quando se sentem mal usam a folha de coca. Guido diz que ela “é a erva base para curar os males do corpo junto com outras".
A aula ao ar livre nos abastece de energia e voltamos à trilha.
Surpresas na subida
Os encontros ao acaso confirmam que quem enfrenta a altitude das montanhas do Peru está disposto a conhecer algo diferente. E quando os encontros são com o povo nativo, a troca é ainda mais rica. Descalça, na companhia dos cachorros, o caminhar firme da mulher que desafia a gravidade na subida em chão de terra atrai a atenção.
A falta de diálogo a assusta. Talvez as marcas do tempo no rosto da senhora não sejam suficientes para identificar o que é uma câmera de TV. Ela foge diante da insistência, tenta se esconder entre as folhas e olha desconfiada.
Seguindo a trilha de solo rochoso, chegamos cada vez mais perto das montanhas geladas. É hora de descansar.
A manhã de sol revela novidades. Conforme subimos, o acesso fica cada vez mais difícil e, a partir de agora, as bagagens vão em mulas. Toda estrutura que encontramos pelo caminho chegou até aqui pelas patas dos animais. E isso inclui até pousadas de luxo. O empresário Henrique Umbert ressalta que a técnica dá mais trabalho, mas ajuda a preservar a região. “Nós utilizamos nove mil viagens de mula para trazer os materiais até aqui. 150 pessoas para transportar os elementos até os refúgios. Na construção foram usados ainda 42 mil pés de madeira de eucalipto, transportados em troncos de até 8 metros para evitar o corte das árvores nativas”.
De volta à trilha, ganhamos a companhia de dois moradores das montanhas. Descendentes de incas, eles são conhecidos como xamãs. Ágeis e fortes, os xamãs preferem caminhar. Em alguns trechos, andam mais rápido do que os cavalos. Hoje, eles são os nossos guias rumo a um lago pouco conhecido por turistas. Chegar até lá exige esforço.
O caminho apresenta pedras soltas e as subidas são cada vez mais difíceis e íngremes. Com a altitude, as paisagens, porém, ganham beleza sem tamanho. Nos trechos planos, as montanhas com picos nevados formam molduras naturais ao nosso redor.
Quando a situação parece tranquila, então surgem outras dificuldades. Em determinado trecho, não há trilha para cavalos e temos que seguir a pé. Cada passo, um esforço.
Ritual no lago Salkantay
A despeito disso, os xamãs seguem sem qualquer dificuldade. Depois de várias paradas, alcançamos o objetivo: o lago glacial Salkantay, formado pelo degelo da montanha com o mesmo nome. Considerada uma das mais importantes do roteiro inca, o topo do Salkantay ultrapassa 6 mil metros de altura. É o pico mais alto da cordilheira Vilcabamba.
Os primeiros grupos de turistas tiveram acesso ao lago considerado sagrado pelos xamãs apenas em 2007. E apesar da beleza que encontramos preservada, o guia faz um alerta: "Faz apenas dois anos que viemos com o primeiro grupo de turistas e observamos um glacial abaixo e uma grande caverna de gelo. A caverna desapareceu totalmente. Esse é um claro sinal do aquecimento global que está afetando também este lado do continente".
Enquanto a natureza resiste, os xamãs se apropriam do cenário para repetir costumes milenares, com oferendas aos deuses da montanha. Na beira do lago, o ritual começa com a manipulação das folhas de coca, consideradas sagradas. Sobre um papel branco, os homens da montanha preparam oferendas à Mãe Terra com o que consideram de bom gosto: bolachas, doces, flores e papéis coloridos - que representam a alegria. Tudo é feito com extrema tranquilidade.
De vez em quando, um dos xamãs se levanta e, entre palavras em voz baixa, sopra o pacote cheio de objetos para as montanhas. Em seguida, repete os gestos como se confirmasse a oração. São quase duas horas de preparação, até que nosso grupo é convidado a participar. O xamã nos orienta para segurarmos três folhas de coca e fazermos pedidos aos deuses das montanhas.
A simbologia dos xamãs
O guia novamente nos ensina a simbologia do ritual: “Cada folha representa um dos três mundos incas: deuses do Olimpo, reino físico e mundo escondido abaixo da terra". Até mesmo os visitantes mais céticos se veem envolvidos pela energia do ritual. Para finalizar, o pacote de oferendas vai ao fogo. De acordo com as brasas e a fumaça, os xamãs podem saber se os deuses gostaram ou não do que foi realizado.
Satisfeitos, os xamãs dizem que as cinzas indicam que nosso ritual foi aprovado pelos deuses. Antes de ir embora, cada participante leva uma pedra para cobrir o fogo e guardar nossos pedidos. O retorno à trilha onde deixamos os cavalos ainda reserva mais surpresas até o fim do dia.
A tarde vai caindo e apesar da companhia dos animais ainda é preciso cuidado. Enfrentamos descidas perigosas. Por incrível que pareça, as dificuldades valorizam os encontros pela cordilheira peruana.
Dificuldades no trajeto
No roteiro inca feito a cavalo, a dinâmica das manhãs é quase uma rotina de montar e sair com os animais. Porém, cada centímetro percorrido na cordilheira peruana é uma surpresa. O desafio deste dia de céu claro é chegar ao topo da montanha Salkantay, um lugar sagrado, porém temido em função da altitude e as dificuldades do trajeto.
Em pouco espaço de tempo, subimos quase 2 mil metros. A geografia esculpida nesta região mostra o que nós representamos diante da imensidão da natureza. Apesar de pequenos, os animais também exibem beleza. Difícil não pensar em ter asas quando se está aqui. Os gaviões passeiam tão perfeitamente pelo ar que parecem nos provocar, encenando espetáculos a quem desejar assisti-los.
O caminho, até então de ambiente seco, começa a mudar. O gelo nos sinaliza que estamos a 4.500 metros de altitude. À medida que subimos fica mais frio e temos que nos proteger. Isso, porém, não deixa a paisagem menos bonita. Quase três horas depois da partida, alcançamos o topo do Salkantay. O reconhecimento da área é feito no lombo dos bichos.
No topo do Salkantay
A parada aqui, porém, é obrigatória. O guia Pepe nos explica que, nesses pontos, as pessoas empilham pedras, sempre com muita fé, fazendo seus pedidos aos deuses. Há quem traga também pequenos objetos como carrinhos e casinhas para escondê-los dentro das pedras e reforçar o pedido.
Além de fazer pedidos, os homens da montanha nos ensinam que o topo da Salkantay é também um lugar de confraternização. As pessoas se saúdam e se abraçam por terem chegado tão longe. Para confirmar o agradecimento da conquista, os xamãs repetem o ritual feito no lago aos pés da grande montanha gelada.
A repetição não diminui o respeito e a emoção de quem enfrentou os desafios do roteiro. A dentista Vilma Massae, que estava no nosso grupo comenta: “Você está a mais de 4.500 metros de altura, numa montanha que a gente ouve tanto falar que é tenebrosa, uma montanha forte, e todos se abraçando, desejando felicidade. A gente fica muito perto da natureza”.
E os momentos seguintes ainda reservam muitos prazeres ao grupo. Do topo da montanha, a rota inca agora começa a descer.
Transição de mata
A noite cai, o novo dia chega com mais mudanças. A proximidade com a floresta atrai novas companhias. O beija-flor é um dos primeiros a aparecer. Logo, as flores passam a colorir o caminho. Orquídeas, margaridas e bromélias dão o ar da graça.
Uma flor cor-de-rosa nos chama a atenção. Ela é característica da cordilheira andina no Peru e é conhecida como llauli. Considerada sagrada, ela foi muito reproduzida pelos incas em diversos desenhos artesanais.
Outros acompanhantes dessa trilha são os rios do Vale Sagrado que emolduram o trajeto e ajudam os aventureiros a recarregar energias para continuar a cavalgada. As paradas nos dão a oportunidade de entender melhor o novo cenário com o guia Pepe Noriega: “Esta floresta basicamente é criada por toda a umidade e a temperatura que vem do lado da cordilheira. Já estamos numa floresta semitropical". Ele ressalta também que, apesar de ser chamada de Amazônia, esta floresta é absolutamente diferente da Amazônia brasileira, que é um bosque de chuva.
Um vilarejo pela trilha
O clima mais quente atrai também moradores para a região. Os vilarejos surgem no caminho com mais frequência. A dona de casa se mudou com a família há dois anos. “Aqui não há cidade, é só campo", conta Andaluzia Tegew. A camponesa mantém uma venda que serve de apoio aos turistas. O comércio ocupa a maior parte da casa. O quartinho, ao lado, com entrada bem estreita, abriga o casal e a filha de 4 anos que se encanta com a câmera.
Despedimos da família para continuarmos a cavalgada. Estamos quase no fim da aventura com os cavalos.
A trilha, porém, fica cada vez mais estreita e somos obrigados a caminhar para evitar acidentes. O risco de cairmos num abismo nos motiva a irmos a pé. Para não quebrarmos o ritmo dos animais, temos que acompanhá-los na trilha e o ritmo exige fôlego.
Depois de um último trecho, ainda com os cavalos, conseguimos aproveitar uma bela cachoeira. A despedida logo depois provoca um sentimento de saudade, mas este é um sinal de que estamos mais perto do nosso objetivo: chegar a uma das maravilhas do mundo.
Um último esforço
Saímos para uma caminhada puxada em uma trilha antiga. A trilha llactapata é a mais estreita que enfrentamos desde o inicio da viagem. A subida íngreme força os músculos e o exercício esquenta o corpo. Como ainda estamos numa região alta, cerca de 2.600 metros acima do nível do mar, um médico nos acompanha nesta jornada. É preciso cuidado com as reações do corpo. “Ao levar o organismo por uma zona de 2.500 metros, há um aumento no consumo de oxigênio do cérebro, do coração e dos rins. Os primeiros sintomas são dores de cabeça, dificuldade respiratória e edema”, diz o especialista em doenças de altitude, Yuri Gonzáles. Atentos aos sinais do corpo, seguimos a caminhada.
Logo, a compensação do esforço começa a surgir. Pequenos animais, plantas, flores e paisagens inesquecíveis. A rota inca é uma escola a céu aberto sobre as técnicas usadas pelos povos do antigo império. O guia mostra que todos os caminhos têm um sistema de drenagem muito sofisticado. “O povo inca mantinha um controle sobre a água", explica Noriega. “Primeiro construíram os muros, colocavam pedras, cascalho e terra, então todo piso de terra eram filtros para água que caía".
Quando nos sentimos exaustos pelo esforço, uma pequena clareira reanima a todos. A boa notícia vem do guia. Estamos num ponto no qual podemos ver pela primeira vez a cidade de Machu Picchu. “Esta é uma vista que pouquíssimas pessoas têm a oportunidade de ver”, declara. Mesmo com nuvens, tentamos observar a cidade com equipamentos de observação. Quanto mais caminhamos, mais pontos de observação encontramos.
Um deles é o mirante llactapata: um portal construído para observação da cidade sagrada. Parte das ruínas continua coberta pela vegetação, mas no que restou há indícios de que era um local usado para agricultura e funcionava como uma ramificação de Machu Picchu. A primeira vista já valeu a pena. Agora a trilha llactapata é de descida. O ponto final da caminhada de 8 horas é a estação de trem que vai até o povoado de Machu Picchu. A ansiedade nos mantém em alerta.
Destino final: Machu Picchu
Antes de amanhecer já estamos na fila para finalmente entrarmos na cidade inca. Subimos a montanha em micro ônibus. Ao entrar, mais aventura!
Em busca da melhor vista do parque arqueológico, atravessamos as ruínas rumo a Wayna Picchu, a segunda montanha que compõe o complexo arquitetônico deste império. O acesso é restrito. Vamos subir cerca de 700 metros. Apenas 400 pessoas têm autorização de subir, por dia. Muito se explica pela dificuldade da trilha.
A vista privilegiada permite, porém, observarmos as características das ruínas. A construção tem o formato de um condor, ave símbolo de força e liberdade para os moradores dos Andes.
É separada em dois grandes setores: o agrícola, onde estão os degraus de experiências e plantio, e a cidade em si, com casas e templos para adoração dos deuses. Subimos mais. É preciso atravessar um túnel para chegar ao ponto mais alto de Wayna Picchu.
Maravilha do mundo
Quem alcança o topo, quer registrar de todos os ângulos. Em meio aos turistas, arqueólogos trabalham sem parar. "Parte da política do instituto é a investigação", conta o diretor do Parque Nacional de Machu Picchu, José Fernando Astete. "Agora estamos fazendo uma série de escavações. A proposta é saber como se construiu Macchu Picchu, com que propósito, em que condições e em que época”.
Oficialmente Machu Picchu foi descoberta em 1911 e até hoje as ruínas escondem muitos mistérios. Do que já se sabe, esta construção foi um centro político administrativo e um local de estudos e orações. Ela segue o padrão visto em outras ruínas do Vale Sagrado. Pedras de granito branco pesando toneladas formam estruturas com acabamento tão perfeito que intrigam até mesmo os engenheiros mais modernos. A geologia é composta por rochas de 250 milhões de anos.
O guia Guido Serrano explica que a cidade foi construída a partir da base do rio para cima, para evitar erosões. “A relação que eles punham nas construções era a relação com a astronomia. Eles queriam fazer um reflexo da Via Lactea ao longo do rio Urubamba. Chamamos de Arquiastronomia, porque de acordo com a forma como funcionam os astros, o sol, a lua, as estrelas. As construções foram desenhadas neste modelo".
Misticismo no Templo do Sol
Entramos no Templo do Sol. Dentro da construção de pedra, três portas falsas representam os mundos de adoração do império: espiritual, dos homens e dos deuses. Uma quarta porta menor era usada para colocar as múmias dos sacerdotes. Estudos indicam que a cidade foi abandonada antes de ser concluída por causa da invasão espanhola, em meados de 1500. A influência dos astros aparece em quase toda a obra. O relógio de sol funciona a partir das sombras refletidas em cada estação do ano.
As montanhas ao redor de Machu Picchu são indicadores de tempo. Da esquerda para a direita, os picos limitam a contagem do ano a partir do dia 21 de julho até 22 de dezembro, por exemplo. “Os incas puseram templos para observar especificamente este momento de 21 de julho em Machu Picchu", diz Guido. No centro da cidade inca, estão concentradas as principais construções.
Quem vem de longe para conhecer as ruínas se encanta. A expectativa é sempre superada e não para de surpreender. Um novo caminho foi desvendado em julho deste ano na montanha atrás das ruínas. Ainda existem muitas coisas para se descobrir nestas montanhas. A ciência permite registros físicos, arquitetônicos. Quem sabe o que mais existe ao redor deste santuário?
Pelo menos por enquanto, um de seus melhores atrativos são os mistérios que envolvem essa maravilha do mundo.
Informacões como chegar lá :
CAVALGADAS BRASIL - 11-7562-8884 www.cavalgadasbrasil.com.br
|