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13/06/2009


Crônica – a relação da doma racional e as dificuldades de criar um filho

Passei o fim de semana em uma fazenda, um paraíso à beira da Serra, no Brasil mais que profundo. À mesa, falávamos das dificuldades de criar um filho, e o fazendeiro defendeu a tese de que a melhor forma de educar um rebento é justamente não tentar educá-lo. Em seguida, desdenhou do tão aclamado limite, dizendo não passar de um substituto da psicologia para a antiga palmatória, e pontuou afirmando que o único valor realmente importante na formação de uma criança é a preservação de sua autoestima. Gostei da teoria, mas não expus minhas dúvidas.
Quando meu filho estava no jardim de infância, umas mocinhas mais velhas da aula de arte começaram a repetir que ele não desenhava direito. Os comentários abalaram visivelmente a felicidade do meu guri e eu, acometida de um violento instinto materno, saquei da estante vários livros de pintura para provar quanto era relativa a ideia de desenhar bem ou mal. Sem esconder a irritação, mandei que ele rebatesse pesado as críticas das senhorinhas e respondesse que as chatas só falavam aquilo porque não entendiam nada de arte moderna nem sabiam quem era Jackson Pollock. Assim ele fez, recuperando o amor-próprio para grande alívio da mamãe aqui.
O efeito colateral do acontecido só surgiu algumas semanas depois, quando notei que o meu moleque havia parado de desenhar figuras, optando prematuramente pelo abstracionismo, salpicando o papel de rabiscos e pingando tinta com o pincel. Foi uma dureza convencê-lo a voltar a desenhar casinhas e bichinhos porque ele repetia que preferia a influência de Pollock. Acabei nas livrarias, atrás de imagens dos primeiros trabalhos do pintor americano, na tentativa de explicar que, antes de romper com as convenções, Pollock havia aprendido a pintar de forma acadêmica. Picasso também ajudou muito.
Não existe nada mais empírico do que educar. Uma criança é uma massa viva de afeto, carências, paixões e vontades que nós, pais, supostamente deveríamos conduzir com sapiência. Mas é mentira, a gente não sabe nada. Instruir é dar um baita de um salto no escuro.
O fazendeiro mineiro cria cavalos e mulas e é partidário da doma sem trauma (doma racioanal). Eu, que sou uma péssima amazona, fico besta cada vez que vou lá. Os cavalos são criados no pasto, não há confinamento, só comem capim da terra, jamais apanham para aprender. O resultado são uns bichos civilizados, espertos e compreensivos. Do tipo que jamais arma vinganças para cima de cavaleiros incompetentes como eu. Sempre me aconselharam a subir num cavalo deixando logo claro quem manda na relação. No meu caso, é o cavalo. Sou como Blanche du Bois, personagem de Tennessee Williams, dependo da caridade alheia quando o assunto é hipismo. Subi o antigo caminho do ouro no lombo de um burro competitivo que foi de uma paciência ímpar com a minha mão indecisa no arreio.
A liberdade do campo e a doma sem trauma parecem funcionar em quadrúpedes e talvez sejam mesmo a solução para a condução das crias. Por outro lado, duvido um pouco do aprendizado sem dor. A escola mais amiguinha e metida a avançada que cursei foi também a mais permissiva e cruel, e os melhores mestres foram os mais rigorosos. Desci a serra ruminando incertezas.
O que mais me choca é constatar que muitas vezes estou tão em pânico no papel de mãe quanto me sinto sobre a sela de um cavalo. Nessas horas, tenho ganas de seguir os conselhos do experiente homem do campo e deixar os meus filhos se resolverem à solta no pasto. Afinal, quem disse que, só por eu estar aqui na Terra há mais tempo, sei mais do que sabia na infância a respeito dos mistérios da existência?
 -Fernanda Torres    junho 2009-


 

   
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